24-04-2018 | A (Mal/Ben)dita Educação Física

Muita tinta tem corrido nos últimos dias sobre a alteração do regime de exclusividade da disciplina de Educação Física para a conclusão do Ensino Secundário e até para a classificação da nota de candidatura no Acesso ao Ensino Superior.

Torna-se até engraçado ver o pânico causado por tais afirmações, estando uns e outros, desde diretores até aos pais, passando pelos alunos, a correr a dar o seu apoio ou contestação. E dos diversos testemunhos que tenho lido, a maior parte parece-me favorecer não a necessidade ou não da inclusão da disciplina nas contas, mas sim uma argumentação sustentada em conveniência para casos específicos: do aluno a quem lhe tinha dado jeito contar para lhe subir a nota ao aluno que tinha excelentes notas e não ficou colocado por uma centésima a menos que não existiria se não fosse por essa maldita disciplina.

Com tantas notícias e comentários, nunca será demais referir que a proposta aprovada em Conselho de Ministros ainda está em consulta pública e não tem qualquer prazo definido para a sua execução; ou seja, parece-me que só fará sentido implementar esta medida para os alunos que façam a sua matrícula no 10º ano, no ano letivo de 2018-2019.

Desta forma, os alunos poderão preparar-se para que essa, tal como todas as outras notas, estejam enquadradas com os valores de que este irá necessitar, tanto para uma satisfatória conclusão do ensino secundário, como para uma possível nota de acesso ao ensino superior. Ou pelo menos assim o deveria ser… Não estivessem os alunos, muitas vezes, mais habituados a ter as notas e depois “logo se vê para o que dá”.

Nunca vi um estudo que determina com exatidão quantos alunos é que descem, mantêm ou sobem a sua classificação final do secundário por influência apenas da Educação Física.

Os alunos a que a Educação Física poderá subir a nota não me parecem preocupados com a medida a ser implementada, muito pelo contrário. Mas, por outro lado, o argumento utilizado para contestar a medida - de que foi por causa disciplina de Educação Física que um aluno não entrou no Ensino superior - parece-me bastante rebuscada. Porquê a Educação Física? Porque não Inglês ou Filosofia?

Esse argumento é muitas vezes utilizado como “o aluno pode não ter aptidão física, logo não é justo”. Então e se outro aluno disser que também não tem aptidão linguística e que, portanto, para ele não deveria contar o Inglês, dado que o seu colega do lado sempre teve jeito para a aprender uma língua.

Não podemos apenas querer retirar uma aptidão da lista de aprendizagens necessárias só porque para alguns não fará sentido. A Educação Física está no programa curricular dos alunos para lhes dotar de aptidão física (entre tantas outras), como a Geometria Descritiva está para lhes dar aptidão espacial.

Todas as disciplinas vão ser necessárias para que sejam uma pessoa completa, nas suas diversas valências e possibilidades de carreira - sendo que nenhuma me parece não precisar de saúde física e mental. Portanto, talvez o que deva ser repensado será antes a forma de avaliação da Educação Física.

Quanto ao Acesso ao Ensino Superior, creio não fazer sentido que todas as partes interessadas tenham sempre uma palavra a dizer sobre a necessidade da inclusão de outras competências, para além da escola, mas ao mesmo tempo queiram retirar das contas a única disciplina que configura uma avaliação que não é meramente mental e cognitiva.

Não deveria o Ensino Superior, através da sua seriação, valorizar e desafiar os jovens a serem mais ativos e saudáveis?

 

 

Sobre Eduardo Filho:

Fundador e Presidente da Associação Inspirar o Futuro que é responsável pelo projeto Yorn Inspiring Future, tem vindo a debruçar-se sobre o tema do Acesso ao Ensino Superior nos últimos 8 anos.

Colaborou com um dos Gabinetes de Acesso ao Ensino Superior da Direção Geral de Ensino Superior durante 4 anos e, mais recentemente, realizou palestras de apoio nesta temática a mais de 100.000 alunos do 12º ano de escolaridade, através do projeto Yorn Inspiring Future. Detém uma vasta experiência, não só a nível legislativo, como também nas dificuldades apresentadas pelos jovens no seu processo de candidatura.

 

Sobre o Yorn Inspiring Future:

A Associação Inspirar o Futuro tem como objetivo dar apoio aos jovens portugueses, com especial foco nas suas fases de transição, para que estes consigam planear de forma consciente o seu projeto de carreira e de vida, alcançando assim o seu máximo potencial.

O Yorn Inspiring Future tem-se mostrado uma aposta consecutiva das escolas secundárias no apoio aos respetivos alunos na transição pós-secundário. Tendo começado com apenas 50 escolas na sua primeira edição em 2013/2014, o projeto cresceu exponencialmente nos últimos anos, tendo abrangido todo o território continental no passado ano letivo, estando presente em 250 escolas secundárias.

Com a ambição de crescer todos os anos, inclui, pela primeira vez neste ano letivo, a Região Autónoma da Madeira.

Em 2017 este projeto foi apoiado pelo instrumento de financiamento “Parcerias para o Impacto” atribuído pela iniciativa Portugal Inovação Social, através de um financiamento europeu mobilizado pelos Fundos Europeus Estruturais e de Investimento, no âmbito do Portugal 2020, demonstrando assim a relevância do impacto social que resulta desta intervenção.







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